Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A Cruz de Cristo e o meu adultério - o 6º post mais lido neste seis anos de blog!

Portanto, eu afirmo a vocês o seguinte: o homem que mandar a sua esposa embora, a não ser em caso de adultério, se tornará adúltero se casar com outra mulher.
Mateus 19: 9



A história universal dos amores humanos é quase sempre interferida por uma série de adultérios de consequências terríveis, todavia, quero tomar como centro da minha abordagem o primeiro adultério – Adão e Eva. O adultério de nossos antigos pais é o arquétipo para todos os demais casos de traição presentes na psique universal.

O adultério nunca deve ser compreendido apenas em seu aspecto sexual, mas, principalmente, devemos estender seu significado às traições ocorridas em todos os níveis de um relacionamento humano. O adultério matrimonial especifica-se na presença de um “outro”, um terceiro elemento na cena de uma relação em que a cumplicidade deveria ser apenas de ambos, o marido e a mulher. Maridos ou esposas que cultivam “melhores amigos” e com estes dividem segredos que jamais compartilhariam com seus próprios cônjuges ou que denigrem a imagem do parceiro a outros e, até mesmo, que pedem dinheiro emprestado a terceiros sem o conhecimento e o consentimento do seu par exemplificam alguns desses casos de adultérios muito comuns no dia a dia de tantos casais que se julgam fiéis um ao outro.


O adultério é sempre a traição da lealdade e não, tão somente, uma questão de infidelidade sexual. Esta, quando ocorre, pode muito bem ser explicada pelo adultério espiritual que se verifica já cometido anteriormente na vida desse casal. Jesus deixou isso explícito no sermão da montanha quando disse que o adultério não se restringe apenas em relacionar-se sexualmente com outra pessoa, mas, antes, é essa cobiça destituída de testemunhas do nosso pensamento por outro(a).


O adultério é uma falha, um rasgo, uma profunda falésia no oceano do caráter da nossa natureza humana. A dificuldade que temos em compreender essa dimensão real e profunda do adultério deve-se ao fato de que nossa sociedade é extremamente sexista e tende a esconder as origens da infidelidade no limitado ambiente freudiano de uma propalada repressão de nossos impulsos sexuais: tratamos o resultado como se este fosse a causa, quando, na verdade, é a consequência visível de uma silenciosa erosão espiritual. Por isso, quase todas as definições e abordagens acerca do adultério refletem esse espírito sexual do nosso tempo, como, por exemplo, esta de Voltaire: "Em latim, adultério quer dizer alteração, adulteração, colocar uma coisa em lugar de outra, crime de falsidade, uso de chaves falsas, contrato falso. Daí o nome adultério dado a quem profana o leito conjugal, como chave falsa introduzida em fechadura alheia." Ledo engano do filósofo que abre mão das águas assombrosas do oceano para aportar na praia tranquila da obviedade. Precisamos ir muito além dessas metáforas sexuais, ou melhor, precisamos retornar ao princípio, se quisermos entender que o problema não é o adultério sexual, mas o coração corrupto do homem do qual nascem todos os demais adultérios, inclusive o sexual.


Adão e Eva estabelecem-se como o padrão do adultério que aqui busco tratar. Apesar das inúmeras tentativas de sexualizar a história desse casal, o que de fato ocorreu no jardim do Éden foi uma deslealdade, uma desobediência, uma traição ao Deus que os criou e lhes presenteou com toda sorte de bênçãos das quais ambos usufruíam: o pecado, portanto, é a corrupção das virtudes humanas! Estas, agora, encontram-se estilhaçadas e para cultivá-las é preciso que o homem faça-o a partir da fadiga do seu trabalho, sabendo que, em meio às virtudes, nascem cardos e abrolhos também.


Desde aquela narrativa de Gênesis, o modelo vai se instaurar de tal maneira no imaginário do Povo que, sempre que este se afastar de Deus para seguir falsos deuses, as Sagradas Escrituras afirmarão que o Povo de Deus é um povo adúltero, uma prostituta, uma meretriz. Este é o ensino bíblico: somos todos adúlteros, porque traímos os preceitos, os votos, a Aliança de Deus. A Bíblia dirá que a Igreja é a noiva do Senhor, mas a noiva está em adultério e perdida no mundo apesar de todo o favor recebido da parte de Seu Noivo. Ainda no Antigo Testamento, Deus fará Oseias experimentar algo do próprio sofrimento divino e registrar em livro os tormentos do profeta com sua esposa adúltera. Todavia, Oseias é impelido por Deus a não desistir daquela com quem ele casou apesar de inúmeros casos de traição por parte dela. O profeta paga um alto preço para retirar sua esposa do mercado de escravos em que ela foi parar depois de uma vida entregue à prostituição. Oseias é o protótipo do próprio Deus, que não desistirá do seu Povo apesar da prostituição deste. A Bíblia, então, diz que para re-editar a Aliança em uma Nova Aliança, Deus envia seu Filho, o Noivo, para morrer por essa mulher adúltera, que somos cada um de nós!



Na Teologia do Pacto, há o Ser divino, Uno e Trino, e que não precisa do homem e nem de seu louvor, mas que decide livremente compartilhar conosco do amor perfeito existente na Santíssima Trindade, o amor perfeito e suficiente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse amor a ser compartilhado com o homem fora decidido na Eternidade, todavia, por saber que o ser humano adulterará e trairá a Aliança, o Pai promete ao Filho resgatar a Sua Noiva e dar a ela a vida eterna se o Filho entregar-se por ela, se o Noivo decidir livre e espontaneamente amá-la até à morte e morte na cruz. É no Seu próprio sangue derramado na Cruz do Calvário que o Noivo compra e livra-nos deste mercado de escravos ao qual nos condenamos! O fim desta, que é a mais bela história de amor de todos os tempos, nós já conhecemos bem. A cruz é a história do amor de Deus que suplanta o adultério da Noiva! Deus decidiu amar Seu povo e ser fiel ao Seu próprio caráter santo, ainda que Ele tivesse o direito de nos repudiar e nos condenar à morte por causa de nosso adultério.


A Paixão e a Ressurreição de Jesus é pagamento e resgate – é na história humana que vemos desenrolar o drama da redenção de nosso adultério primordial. O Espírito Santo tem chamado a Noiva de Cristo às bodas do Cordeiro. Eis que as nossas vestes sujas pela fornicação e prostituição espirituais serão trocadas pela veste alva da noiva que entra na nave da Igreja – imagem já tão desbotada da cultura decadente e descristianizada de nossa geração. Por isso, aqueles que escutarem o chamado do Noivo, ouvirem a Sua voz clamando por sua amada Sulamita, precisam responder ao Noivo: sim, eu aceito! É nesta resposta que encontraremos a paz da reconciliação com Aquele que jamais deixou de amar sua Noiva. Enfim, a Cruz e o túmulo vazio - e não o divórcio e nem a morte por apedrejamento - são a resposta de Deus ao meu adultério!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A crise da fêmea - o 5º post mais lido nestes 6 anos de blog!


Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó meu amor.
Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, 
o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.
(Ct 1; 9-11; Fiel)


Quais significados estão contidos na metáfora desses versos? Poder, beleza, imponência, força! O amado finalmente manifesta-se no livro e nos revela sua admiração, sua estupefação diante da noiva! Oferece a ela versos e presentes. Poesia e jóias. Há muitas maneiras de se agradar, de se valorizar e de expressarmos os nossos sentimentos e desejos por uma mulher. E ela, a noiva, sabe incitar o seu homem à criatividade.

Esta comparação – "às éguas dos carros de Faraó" – era um elogio comum dos noivos às noivas naquela época.  Evidentemente, erótico. Todavia, não vulgar. Quais características femininas são referidas pelas analogias de nossa subcultura? Na era das mulheres-fruta, reduzidas à coisificação estritamente pornográfica, retornamos ao noivo de Cantares, que expressa a grandeza, a fortaleza física e a integridade moral e espiritual da majestosa noiva: a excelência feminina em sua totalidade, alma e corpo.

O que se têm dito das mulheres de nossa geração? O que aprendemos dentro de nossas casas, nas escolas, no trabalho sobre o que dizer da mulher? Mas o mais surpreendente é que há essaszinhas, as chulas, que se submetem ao menosprezo, ao ridículo, às humilhações masculinas (e, pelo que demonstram, parecem mesmo gostar). Nada contra mulher que gosta de apanhar, ser humilhada, rebaixada, cuspida... Parece que, realmente, elas existem e não são apenas criações fantasiosas do mundo pornográfico (machista). Bem, elas são livres para se tornarem escravas daquilo que bem quiserem.  Nada tenho com isso, de fato.

O problema é que a mulher-coisa é uma imagem fixada e estendida para todas representantes do sexo feminino, indiscriminadamente. Esta é a imagem repassada aos meninos, desde cedo. Há quem diga, ainda, que é só atuação, só imagem, ou fantasia... O fato é que há mulheres que se vendem (ou se dão de graça mesmo), prostitutas de plantão à disposição da humilhação. Paradoxalmente, os jovens são introduzidos ao universo feminino por elas, seja num prostíbulo (ao qual muitos pais levam seus filhos, embora, agora, já haja serviços mais cleans em motéis ou dentro de casa mesmo), seja também por filmes, revistas e o que a mídia nos oferece. Portanto, é uma cultura que molda, apresenta e define para nós, homens, o que são as mulheres, a que elas se submetem, do que elas gostam e o que podemos e devemos exigir delas. O que esperar do imaginário masculino se, desde a tenra juventude, é a isso tudo que somos doutrinados?

A crise é feminina, não é masculina. Nunca foi. A imagem primordial da mulher é a imagem da mãe – mentora que deveria, primeiramente, nos introduzir ao universo feminino. Todavia, as mães saíram de casa. A ausência dessa referência para os filhos é um abismo, um buraco aberto na formação do caráter do homem. Seremos, então, muito cedo, apresentados a outras mulheres. Perdendo, portanto, a fase do convívio e da admiração proporcionada pelo caráter bondoso, meigo, feminino da própria mãe. 

A crise, sinto muito dizer, nunca foi do macho. A crise é das mulheres que se despiram da maternidade e da responsabilidade de criarem homens de caráter,  filhos homens que respeitassem o sexo oposto, admirassem o universo feminino e que possuíssem o zelo devido às mulheres que lhe serão confiadas amanhã.

Creio que nunca a nossa cultura ocidental foi tão impregnada  por imagens de domínio sexual e abuso machista como o é agora e na qual a mulher se submete e se definha na sua sexualidade, beleza e natureza. É impossível não imaginar que houve uma armadilha cultural - uma arquitetura epistemológica - preparada pelos homens para que elas caíssem e, julgando-se livres, elas fossem, na verdade, tão oprimidas e dominadas como estão agora. Uma espécie de plano macabro planetário, que as subjugou, dando a elas a liberdade de se tornarem uma coisa, um objeto, uma fruta, um fetiche, um pedaço de carne, enfim, mas por livre e espontânea vontade delas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Daniel na cova dos leões - o 4º post mais lido nestes 6 anos de blog!



Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

 
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

 
Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.


O autor nos sugere pelo uso da palavra amargo, que aquela experiência homossexual específica não foi prazerosa num primeiro momento (e ele vai tratar de "resolver" isso no restante da letra). Mas, veja, há uma mudança nos versos seguintes muito semelhante à experiência com cigarro (ou à maconha, tanto que muitos pensaram que se tratasse disso a letra da música). Entretanto, o amargo daquela primeira experiência logo se torna doce e o cheiro do outro - forte e lento - sorrateiramente se fixa nos braços do autor da letra - ou do narrador.  De qualquer maneira, as características do vício e da paixão estão presentes no turbilhão de sensações que se expressam: "forte, cego e tenso", portanto o vício está estabelecido e, insaciável, pede mais do mesmo.


Qual segredo que há entre eles? E quem ousará desafiar a intimidade dos dois? O narrador está totalmente entregue à paixão e já, inconsequentemente, não tem mais medo de errar, pois a insegurança não é mais um sentimento que o atormenta. E a identificação entre os dois nessa relação sem ontem ou amanhã, na qual apenas o momento e o instante definem e regem a liberdade entre os dois amantes, pauta para nós o ritmo do ambiente criado pela música. Entretanto, dos dois personagens apenas um está livre do medo e da insegurança. O narrador revela a nós que o outro tem medo de ter medo de ter medo de se entregar com tamanha liberdade e audácia como ele mesmo faz. A convicção e a segurança expressas pelo narrador geram no outro essa perplexidade diante de tamanha força na entrega a algo tão proibido. Aqui, neste ponto, temos o verso mais revelador da relação homossexual descrita na música: "Teu corpo é meu espelho...".  E ainda que haja de um lado insegurança, medo e confusão, do narrador em 1ª pessoa há a certeza exata de se estar no controle da situação para usufruir o máximo possível de tudo o que pode ser oferecido pelo outro.


Então, porque fugir dessa atração? Por que ter medo? Por que tanta confusão? Negar o próprio desejo homossexual é ir contra a natureza (...tão certo quanto o erro de ser barco/A motor e insistir em usar os remos). Em outras palavras, se ambos foram feitos exatamente para esse fim, porque tentar insistir em viver de outra maneira? (daí, o desafio ao instinto dissonante - quem está destoando são os outros e não os dois!). A conclusão final é a de que não se entregar aos desejos homossexuais de ambos é o mesmo que morrer afogado na frente do salva-vidas, enfim, uma imensa tolice! O que temos, então, é uma letra de sedução, persuasão e convencimento homossexual. 


Naquele disco, "Legião Urbana Dois", fomos presenteados com inúmeras músicas de um Renato Russo no auge da criatividade como letrista - um disco que ainda guardava reminiscências do "Aborto Elétrico", grupo anterior que se pautava pela forte pegada punk. Contudo, o disco superava ao mesmo tempo toda essa formação original, trazendo um Renato Russo fortemente influenciado pelos simbolistas como Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé. Pérolas preciosas para o rock nacional estão ali naquele emblemático LP que marcou toda uma geração: "Índios", "Andrea Dorea", "Acrilic on Canvas" são apenas algumas dessas músicas.


Quanto à "Daniel na cova dos leões", ela aparece assinada pelo Renato Russo e pelo Renato Rocha, que sairia da banda logo após a conclusão desse disco. A música apontava para uma proposital ambiguidade sobre o que de fato estaria sendo dito na letra da música, mas, anos depois, o próprio Renato Russo confirmou que a música tratava da homossexualidade. Naquela efervescente década de 80 em que Brasília despontava como a Capital do Rock, é claro que Renato Russo estava muito mais antenado com o movimento gay do que nossa juventude poderia supor. Tanto que a homossexualidade da letra passou desapercebida por muitos de nós. Mas, muito antes daquela década de 80, o movimento gay mundial já transformara Jesus, Davi, Jonatas, João e tantos outros personagens bíblicos em ícones eróticos da causa gayzista. Tudo isso sendo difundido pela cultura da mídia e da música, além das artes em todas as suas expressões.  


O que mostra que a cultura artística - em quaisquer de suas expressões - nunca deve ser interpretada inocentemente e sem o crivo da Bíblia. Valores, ideias, costumes, moral, re-engenharia social e formatação das mentes têm sido feito com sucesso há anos, abrindo caminho para a silenciosa revolução que já atua e que levará o nosso mundo à hegemonia de uma Nova Era pagã.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O beijo - o 3º post mais lido nestes 6 anos de blog!

"Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam" (Ct 1: 2-3).

O beijo desejado pela mulher apaixonada. O verso arrancado do anseio, da espera, da ausência que não se sacia. A mulher apaixonada que expressa claramente os seus desejos, sem jogos ou subterfúgios. A mulher que fala. Nada se insinua, nada se esconde. Tão pouco, ela se coloca no papel de coagida, tímida ou distante. Ela deseja. Não há metáfora no verso, não há ainda comparação alguma. O livro é iniciado com essa lâmina cortante do desejo expresso em toda sua sinceridade. Sim, o desejo feminino pelos beijos da boca do homem amado.

A primeira fala de um ser humano na Bíblia é ocasionada pela admiração. O primeiro verso surge da boca de Adão extasiado pelo vislumbre daquela que agora era "osso dos meus ossos e carne das minhas carnes". Agora, mais uma vez, o verso da admiração. A admiração que surge do simples, do cotidiano, do comum alcançado pelos olhos de todos nós, mas que poucos, muito poucos são capazes de perceber.

Há prazer na Bíblia e o prazer aqui não é masculino, mas é expresso por uma mulher que não reprime ou esconde aquilo que sente: prazer. Qualquer beijo? O beijo fruto do amor, porque o amor dele por ela é melhor do que o vinho. A qualidade do amor que nos falta à nossa geração carente da embriaguez causada pelo verdadeiro amor. A embriaguez sublime não se encontra nem nos melhores vinhos. É no amor dele para com ela que se identifica o melhor beijo. O beijo profundo, inebriante, prazeroso do amor verdadeiro.

Há prazer sensitivo que se derrama como taça do melhor vinho da boca da mulher amada. O prazer das impressões sensoriais. O corpo dela totalmente envolvido no fato declarado de se encontrar totalmente apaixonada. Paladar, olfato e audição se misturam, agora, numa sinestesia, impulsionados pela força do amor. O perfume dele, suave e leve. O cheiro do corpo do amado que se estende ao nome dele. O nome, um perfume derramado. Que mistura de sentidos! Que celebração do corpo, criação prazerosa de Deus. O corpo, que para muitos filósofos gregos era a prisão da alma, é para Deus digno da ressurreição da carne. A carne retornará. Essa carne cantada, provada, cheirada pela mulher apaixonada não será condenada à terra e nem ao aniquilacionismo. Deus, o criador do nosso corpo, tem um plano maravilhoso para ele e os homens não podem rebaixá-lo à vulgaridade e ao animalismo e, nem tampouco, sublimá-lo à categoria dos seres celestiais que não se entregam uns aos outros em casamento.

Por isso as virgens desejam o corpo do amado, por ser o corpo fonte de prazer e de experiências sensoriais inefáveis àquelas que aguardam castas a vinda do seu amado. Esta exaltação do corpo, da pele, do cheiro, do sabor nos vem inaugurando essa peça de maravilhosa beleza e nos vem dos lábios desejos de uma mulher.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O dia em que o príncipe beijou o dragão - o 2º post mais lido nestes 6 anos de blog!

Gosto de histórias, tramas, personagens conflituosos, porque, desde criança, aprendi a ler e assistir a boas narrativas. Encantei-me com livros como “O Pássaro da chuva”, “Meu pé de laranja lima” e a sensacional coleção que havia na Biblioteca do meu pai chamada “O mundo da criança”. 

Aliás, foi nessa biblioteca que a magia se abriu para mim desde cedo: lia e relia “a Barsa”, “a Delta Larousse”, os livros repletos de gravuras sobre a 2ª Guerra Mundial, outro repleto de desenhos de pássaros do mundo inteiro, a coleção que havia de histórias e lendas de todos os Estados brasileiros, enfim, foram essas as leituras da minha infância.

Lembro-me que eu tinha em minha casa um “bolachão preto” com histórias de ciranda. Eram músicas e narrativas dramatizadas que me marcaram profundamente também. Neste “bolachão”, uma das histórias que eu mais ouvia era a “O feitiço virou contra o feiticeiro”, que falava de um menino travesso que afrouxara as peças de uma bicicleta para fazer maldade com um colega, mas, no fim, foi esse mesmo menino quem terminou acidentando-se com a bicicleta que ele mesmo havia preparado para machucar o outro.

Cresci assistindo “Branca de neve”, “A Bela adormecida” e todas aquelas histórias em que o Bem sempre vencia o Mal. Histórias em que as donzelas eram salvas pelos príncipes, heróis que enfrentavam terríveis perigos por amor de suas amadas. 

As novelas também eram um mundo fascinante e misterioso. Quem ainda se lembra daquela novela com a Bruna Lombardi e Rubens de Falco em que este era um vampiro? Ou aquela com o Professor que virava lobisomem? Foram tantas personagens que marcaram o nosso universo infanto-juvenil e adolescente com ótimos atores, “gigantes” como dizia minha mãe, que carregavam nos ombros as grandes atuações que aqueles personagens exigiam.

Mas, com o tempo, a magia foi cedendo espaço à realidade e, finalmente, a desculpa era que a teledramaturgia copiasse a vida. A vida sem graça e os vícios dominaram os enredos das novelas assistidas por crianças e adolescentes: pais e mães solteiros, divórcio, traição, drogas, prostituição, fornicação, etc. 

Os heróis eram revelados como bandidos nas tramas e os bandidos foram transformados (mesmo imorais e corruptos) nos príncipes que as mocinhas desejavam. As mocinhas deixaram de ser mocinhas. Os meninos viraram meninas e as meninas viraram meninos. 

Não havia mais castelos para conquistar, perigos para enfrentar e nem a princesa deixava-se salvar pelo seu herói, porque aprendera a se virar sozinha. A imaginação, o simbolismo, o sublime, a magia foram desaparecendo até que, num triste dia, o príncipe cansado de princesas feministas salvou o dragão, dando-lhe um beijo encantado!

Quando parei de assistir às novelas? Estávamos eu e minha esposa deitados na cama diante de mais um capítulo da novela “Celebridade”, era uma quinta-feira. Terminou o episódio naquela noite, víamos os créditos subindo na tela da tv e apenas um silêncio incômodo no quarto, como se além de nós, sentado ali bem junto aos nossos pés, houvesse a presença vitoriosa do dragão que fora salvo pelo príncipe: “Você viu?”, perguntei à minha esposa. Ela acenou positivamente com a cabeça e, então, eu constatei: “No capítulo de hoje, apareceram cinco casais que foram para cama em momentos diferentes e, em cada uma das cenas de sexo, a novela mostrou que o homem e a mulher, que não eram casados, faziam sexo entre si, mas cada um pensando em outra pessoa”!  

Decididamente, não era aquela confusão que gostaríamos de ver entrando diariamente em nossa casa. Não eram aqueles pecados, aquelas ervas daninhas que gostaríamos de ver crescendo em nosso jardim. Minha primeira filha estava com apenas seis meses quando a novela estreou, portanto, ela estava deitada ao nosso lado naquela cama, inocente de tudo aquilo que acabávamos de testemunhar. 

Decidimos, então, que ensinaríamos a ela que o Bem sempre vence o Mal, que o príncipe fará de tudo, colocando a própria vida em risco, para salvar a princesa; decidimos que ensinaríamos que o Dragão precisava ser morto e não beijado pelo príncipe e que este deveria encarnar os valores que nossas filhas aprenderiam a procurar nos homens: coragem, amor sacrificial, honestidade, perseverança, bondade, fidelidade, lealdade, honra!

Desligamos a televisão naquela noite e, desde então, nunca mais assistimos a quaisquer novelas e, hoje, enquanto tantos debatem sobre os últimos escândalos da teledramaturgia, a última cena de novela que eu não assisti, felizmente, nem podemos participar dessas discussões, porque, no horário dessas novelas, estamos juntos em família no nosso culto doméstico, lendo a Bíblia e orando com nossas filhas, ensinando a elas que ainda é possível acreditar que podemos ser felizes para sempre.  

Postado originalmente em 03/02/2014
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