Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Língua em Cultura - traduções...

"Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença e todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada – o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? As suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor".

Eles vieram com o texto acima. Texto de Dalton Trevisan, "Apelo". Escrito em forma de carta, já começa a complicar aí. Não para você, caro leitor, mergulhado em nossa cultura desde os primeiros suspiros de vida. Carta ou bilhete, a cultura oral deles não prevê essas nuances. Estou falando deles. Os meus “alunos estrangeiros" que não dominam a nossa língua e, muito menos, nossa cultura literária. O professor da escola entregou esse texto seguido de dez perguntas para que respondessem. Mera ilusão.

Tenho auxiliado nas matérias da Escola aos meus jovens estrangeiros. Ao ler o texto, percebi como era intocável aquela realidade textual para eles. A realidade na qual o texto estava submergido. "Vocês sabem o que é apelo?", perguntei. "Não", responderam. Fui, então, lendo aos poucos e traduzindo algumas palavras e frases para a língua materna deles. Foi quando percebi que havia algo mais do que palavras não compreendidas ou estrangeiras. Era algo muito mais profundo e escondido sob o manto dos simples significados diretos das palavras: era a cultura.

Meus "jovens estrangeiros" não apenas falam uma outra língua, como sua cultura é outra, diametralmente outra cultura. Assim, ainda que traduzisse todo texto para eles, havia algo distante, intocável. Era um mundo de textos da vida cotidiana de um casal urbano não escritos ali, mas, inscritos fortemente ali, sim! E, sem o qual, jamais compreenderíamos o texto e suas palavras naquela folha de papel.

Há um lugar-comum: "a língua é a chave para entendermos a cultura". Nada mais limitado e deformado do que essa sentença. A língua é UM elemento da cultura. E a cultura de cada um é muito maior do que nossas palavras. Ou, ainda, segundo o mestre Rosenstock-Huessy: "A língua vivente do povo sempre sobrepuja o pensamento do homem individual que pressupõe dominá-la".

Dois momentos fascinantes na tradução do nosso mundo ao mundo deles: explicar a pergunta "Acaso é saudade, Senhora?" e o surgimento inesperado daquele terceiro personagem "nós", que é revelado ao leitor somente no final.

Todo texto escrito guarda em si muito mais textos ocultos. O problema não se resumia em saber uma palavra equivalente à "apelo" na língua deles. Mas, na cultura deles, encontrar o sentimento de abandono e esse desejo de que a Senhora volte. E mais, encontrar a razão da ausência de alguém ser tão presente ao ponto de se manifestar em objetos simples da vida cotidiana.

Enfim, traduzir é o ministério da (re)conciliação; é aspergir algo possível da poesia de uma cultura sobre outra.

Um comentário:

Rita disse...

Olá,Paz
Enquanto conhecia esse espaço tão culto e agradável,vcs me visitaram,então daqui mesmo agradeço, estou degustando essas postagens ótimas ,parabéns,devia ter vindo antes rsrrs

Muito interessante esse "apelo",e concordo que a cultura de cada um da uma visão diferente a cada situação seja da vida diária ou de algo mais complexo,vejo nessa diversidade o poder de Deus em criar um homem a sua imagem e semelhança,e mesmo caindo em pecado e manchando sua pureza,o Senhor o conservou com uma individualidade única ,que a partir de cada povo,língua ou nação nasce em indizíveis mistérios,e vai se manifestando a graça de muitas formas,a literatura é um recurso fantástico para se conhecer a personalidade, os anseios,os sonhos de cada um de nós,o Eterno é eterna cultura, santa e imaculada,fonte de alegria e prazer,o "apelo" dEle é por todos nós,é lindo podermos traçar um paralelo com muitas letras que estão em nossa vida,e nessa reta andar por aquela que nos da discernimento,e paz.
Fiquem na paz do Eterno,que Ele, o Cristo os abençoe!!

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