Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Você já se perdeu de tanto amor? (ou Sobre “Cantares para ela mesma”)

Você já se perdeu de tanto amor? Eu já! Foi em julho de 1997. Namorava Lucila há quase um ano e ela sempre ouvia de mim, desde o primeiro dia de namoro, que eu queria casar era com ela. De tanto repetir isso, acabei assustando a menina. Ela me largou e, pior, ela usou comigo a desculpa mais sem pé e sem cabeça possível, só para esconder o medo que ela tinha dessa seriedade toda que eu empenhava na nossa relação. Mas isso foi no mês de junho.

Em julho daquele ano, as coisas só pioraram. A Lu viajou para Itu, São Paulo, para o Festival de Música. E eu fiquei sozinho na solidão árida do Planalto Central. Nem preciso dizer que minha vida espiritual desandou completamente. Fiquei totalmente desorientado e foi um tempo de briga com Deus, tempo de erguer os punhos ao Céu e indagar: por quê? Coisa de neófito que ainda precisava ver tratadas em mim certas coisas por Deus. Mas o fato é que me deixei arrastar por velhos becos e ruas demasiadamente escuras de novo. Ainda durante aquele tenebroso mês, também soube trancar-me no quarto. Ouvi, mais uma vez, toda aquela velha coleção da minha mãe de discos do Roberto Carlos. E sobre o antigo computador de mesa que havia ali no meu quarto, saí escrevendo e escrevendo contos. No fim daquele mês, havia escrito um livro, intitulado: “O cravo de dez crivos”. Eram dez contos muito depressivos, dez contos que eram verdadeiros exorcismos de toda aquela minha situação espiritual. 

Lembro-me pequeno, talvez dez ou onze anos, na sala da minha casa, eu já escrevia poemas. Havia cadernos e cadernos, todos repletos de versos. Depois dos poemas, vieram os contos e as crônicas. Adulto, descobri os artigos. Durante muitos anos, abandonei a poesia e me dediquei só a escrever artigos. Desta época, surgiu um novo livro, mas era um livro de teologia: “A Religião de Deus”. Um livro fortemente influenciado por Karl Barth e pela teologia Católico-Romana do século XX que eu lia na época. Em outras palavras, era um livro de teologia liberal (ou pelo menos neo-ortodoxo), mas que me serviu como reavaliação para retornar à boa e antiga ortodoxia cristã ao constatar o ponto vazio e oco ao qual chegaram os liberais.

Finalmente, a volta à poesia se deu por causa deste blog, que surgiu como homenagem ao aniversário de 15 anos de caminhada ao lado da Lu. Meus planos eram publicar aqui os poemas que escrevi por mais de dez anos e que renderam um livro com muitos e muitos versos para minha namorada. Todavia, acreditem, a Lu perdeu o livro das minhas poesias escritas para ela! Pode?! O que me pegou totalmente de surpresa, porque o blog havia sido publicado e já estava anunciado ali no alto da página “cantares para ela mesma”. E agora? Então, começei uma luta. Eu achei que estava tão “viciado” em escrever artigos, que não conseguiria mais escrever poesias. Foi um esforço físico, emocional e intelectual terrível voltar a escrever poemas. Pode parecer estranho ler isso, mas lutei muito comigo mesmo até re-encontrar o caminho perdido da poesia em mim. Pelo menos para mim, são confecções totalmente diversas a da prosa, a da poesia, o artigo, o conto, a crônica, etc. Embora sejam escritas, participantes então de um mesmo tecido original, suas confecções exigem técnicas muito díspares entre si. E eu sentia que havia perdido o meu caminho particular desse universo...

A Lu, portanto, é responsável por dois livros que escrevi: um de poesia, perdido, e outro de contos, trágico. Mas ela é responsável também por este blog. E graças à inspiração de tantos anos de caminhada, a Lu, mais uma vez, trouxe-me de volta à poesia e, num dia desses, ela mesma me disse: “Fábio, veja, já foram 14 poesias que você escreveu para mim”! E, se Deus quiser, muitas outras virão, meu amor!

Eu comecei este post afirmando que já me perdi de tanto amor, assim, só poderei encerrá-lo, dizendo que, depois de me perder de tanto amor, eu e a Lu nos encontramos de novo. Eram encontros fortuitos na Biblioteca da Faculdade em que estudávamos. Ela aparecia por lá só para me atiçar, só para me judiar, porque ela já sabia que queria voltar para mim. Mas eu ainda não. Eu ficava na Biblioteca, afogando minhas mágoas em livros e, quando levantava os olhos do papel, lá estava ela, linda e me maltratando o coração, passeando e sorrindo bem na minha frente. Até que numa bela tarde de setembro, em meio às estantes, entre os livros e aquele silêncio bibliotecal, ela me surpreende num abraço repentino e assalta-me com um doce e looooongo beijo...

Deixo essa belíssima música de 1971, 
tirada daquela antiga coleção de bolachões da minha mãe...

6 comentários:

Mariani Lima disse...

Fábio, eu sempre escrevi tb. Quando menina escrevia muito mais pois lia muito mais, larguei definitivamente esse negócio por muitos anos e voltei a escrever meus sentimentos com o blog tb. Não me prendo tanto aos pudores das regras muito provavelmente por que não me lembro tanto delas,rsrs e por que tb é o único momento que eu não tenho hora, regras,preocupações. Eu tb costumava desenhar e pintar. O desenho busquei um pouco de técnica e a pintura não. Mas de alguma forma eu larguei tudo isso na minha adolescênci. Só retomei agora.
Q bom que o teu amor por sua esposa te permita escrever poemas novamente, já a poesia vejo em tudo que vc escreve, até nos simples comentários do blog.
Continue amando bonito assim, é o que faz a vida valer a pena, esse recanto que só cabe dois, afinal de tudo o mais qualquer um pode nos dar, mas esse amor de se perder só um para o outro.
Amei! Fica com Deus!

Paulo Francisco disse...

Fábio, valeu pelo comentário lá no Varanda. Também estou te seguindo.
Escrever poesia é uma coisa que vem de dentro - o eu-lírico tem que está em dia rs rs rs.
Muito bom este seu texto.
Um abraço

Silvana disse...

oi, fábio!
vim retribuir a visita lá no blog e aproveitar pra te seguir tb.
q texto legal. simples e objetivo como o amor deve ser. não adianta fingir q não se ama, não é? a lucila q o diga.
parabéns a vcs dois por terem um ao outro.
boa sorte no sorteio, ok?
abçs.

Luciana Severo disse...

Q legal Fábio ... vcs dois realmente formam um casal 20, como assim deve ser ... tb tenho minha alma gemêa e somos bem parecidos assim com vcs, bem unidos rs abços

Tom Alvim disse...

Que texto bacana mano,
ele retrata bem o que vc passou naquela época. Também tenho algumas histórias do tempo em que namorava a minha amada esposa, mas tenho certa dificuldade em passar para o papel da forma mais correta possível. Parabéns e continue sempre assim, o amor é um presente de Deus para nós os homens, vamos aproveitá-lo então.
Em Cristo,
Tom.

Casal 20 disse...

Amor,o Senhor teve misericórdia de mim... Que bom que abri meus olhos a tempo de não te perder. Vc é um presentão que o Senhor me deu! Te amo!!

Sua Lu

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